Aguapés formam “campos de futebol” no Rio Tietê e afetam desde turismo náutico até a pesca

O Rio Tietê atravessa praticamente todo o estado de São Paulo e seu curso d’água não se resume a poluição. Em vários pontos, fora da capital, suas águas límpidas são fonte de renda para pescadores e operadores de turismo náutico. Esse trabalho, contudo, tem sido ameaçado pelos aguapés, espécie de planta aquática que tem transformado trechos do rio em “campos de futebol”.

Veja também
Pilotar jet em 1 dia? Como funciona o Motonauta Especial
Navegar pelo Brasil: o desafio do abastecimento e o papel das Secretarias de Turismo
Inscreva-se no Canal Náutica no Youtube

Especialmente na região de Barra Bonita, o tom azul da água, que costuma atrair cerca de 3 mil pessoas de diversas regiões por semana em barcos turísticos, tem dado lugar ao verde. Em alguns trechos, as plantas chegam a cobrir 6 km do rio.

 

Nos roteiros turísticos, o ponto alto é quando as embarcações passam pelas eclusas, verdadeiros “elevadores” gigantes de barcos. Porém, após as comportas se fecharem e a câmara se encher de água, para levar o barco a um nível mais alto do rio, a paisagem esperada tem dado lugar a um imenso “matagal”.

Imagem de arquivo mostra o rio Tietê coberto por plantas aquáticas na cidade de Barra Bonita / Foto: Prefeitura de Barra Bonita / Divulgação

O jornalista e empresário Carlos Nascimento, proprietário do Navio Homero Krähenbühl, que realiza cruzeiros e eventos no Rio Tietê, conta que atualmente só é possível definir se a viagem com eclusa será realizada no momento do passeio. “Os clientes não gostam disso, eles querem a certeza de que vão fazer a viagem completa”.

Isso causa prejuízo. Na última semana, por exemplo, um grupo de 45 pessoas cancelou a viagem nos últimos momentos porque não tinha a certeza se haveria a passagem pela eclusa ou não– conta Carlos Nascimento

Segundo ele, quando não dá para passar, o barco entra na eclusa, sobe, mas não sai do outro lado, uma vez que a porta fica fechada. Mas os problemas vão muito além disso.

Toda uma cadeia afetada pelos aguapés no Rio Tietê

O excesso de aguapés no rio Tietê tem afetado diretamente a locomoção dos barcos, principalmente os de menor porte. As plantas podem se enroscar no eixo, no hélice, ou ainda serem aspiradas pelo motor, comprometendo a navegação e com risco de danificar as embarcações.

Foto: Rosi Pereira / Arquivo Pessoal

A Capitania Fluvial do Tietê-Paraná, aliás, tem um dos maiores número de embarcações de esporte e recreio registrado entre todas as capitanias. Ou seja, a maior parte das embarcações desse tipo está no rio.

 

Já para as embarcações de turismo — atualmente cinco empresas trabalham na área, com 10 embarcações de grande porte em média — , além dos riscos mencionados, o aguapé entope a canalização de refrigeração do ar. “Os filtros ficam lotados de pedaços da planta”, explica Nascimento.

 

Circulando pelo Tietê há ainda comboios de carga que, apesar da maior facilidade em enfrentar as plantas, também sofrem com os prejuízos da navegação. Hoje, essas embarcações transportam, principalmente, grãos.

Os iguapés que cobriram o rio Tietê também têm causado prejuízos a produtores de peixes e a pescadores. No primeiro caso, na cidade de Arealva, também no interior de São Paulo, os ventos arrastaram as plantas aquáticas para dentro dos tanques de tilápias de uma fazenda de piscicultura, dificultando a alimentação dos animais, devido à falta de oxigênio.

 

Ao mesmo tempo, pescadores têm visto a renda cair devido às dificuldades de sair com o barco, além dos obstáculos encontrados no uso dos próprios equipamentos de trabalho, como o anzol, que acaba agarrando sujeira.

Foto: Rosi Pereira / Arquivo Pessoal

Como se não bastasse, o meio ambiente, claro, também sofre. Um grupo de pesquisadores liderado pelo biólogo Marcelo Oliveira, de Araçatuba, divulgou através do Instagram um “alerta ambiental no Rio Tietê”, chamando atenção para o risco das algas no rio, que têm causado a proliferação das cianobactérias.

Identificamos a presença massiva da cianobactéria Microcystis aeruginosa nas águas esverdeadas. Essa espécie é altamente tóxica e representa sério risco ambiental e à saúde humana– alerta o texto

Além disso, o Grupo de Trabalho “GT Macrófitas” concluiu um estudo, com professores da Universidade Estadual Paulista (UNESP), que aponta para o risco de que, a médio prazo, a hidrovia Tietê-Paraná pode perder suas características de via navegável e se tornar um pântano, com impactos severos para o meio ambiente e a população ribeirinha — são cerca de 60 municípios na região.

 

A proliferação dos aguapés no rio Tietê, agravada por esgotos e fertilizantes, já ocupa uma extensão de mais de 300 quilômetros do curso d’água, de Conchas a Araçatuba, atingindo também as eclusas de Bariri e Ibitinga.

Foto: Rosi Pereira / Arquivo Pessoal

Como os aguapés se formam

Os aguapés nada mais são do que plantas aquáticas flutuantes, que têm preferência por rios de fluxo lento ou lagoas de água doce. Elas se reproduzem rapidamente — especialmente no calor — , o que representa perigo, já que são consideradas uma das piores espécies invasoras.

 

Por se tratar de uma planta flutuante, os aguapés são levados pela correnteza. Assim, com o passar do tempo, vão se encontrando sobre as águas e formando espécies de ilhas, como tem acontecido em Barra Bonita.

 

Apesar de a espécie exercer também um bom papel ambiental, já que realiza a filtragem da água, mas, em excesso, pode causar danos. Jozrael Rezende, professor de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, explicou ao G1 que os aguapés “ocupam um espaço impedindo, inclusive, a fotossíntese no meio aquático”.

Foto: Rosi Pereira / Arquivo Pessoal

Além disso, o problema vai para além de onde os olhos podem ver. Isso porque, em alguns casos, as raízes dessas plantas podem ter mais de um metro de comprimento. Debaixo d’água, elas se entrelaçam, formando uma espécie de parede, o que dificulta a navegação.

O que tem sido feito para resolver os aguapés no Rio Tietê?

Um plano de controle foi apresentado pelo governo de São Paulo durante o Fórum de Integração das Ações de Recuperação do Rio Tietê, no último dia 25. A ideia é que uma barreira com boias seja instalada para conter os aguapés que ameaçam fechar o Rio Tietê na região de Barra Bonita.

 

A barreira flutuante, de 2 km, será ancorada perto da barragem da Usina Hidrelétrica de Barra Bonita, com previsão de instalação em até 120 dias. Além disso, uma equipe embarcada deve ficar à disposição para realizar a remoção dos aguapés que eventualmente ultrapassarem a contenção.

 

Outras ações incluem um grupo de fiscalização para identificar fontes de poluição e a instalação de sondas para monitorar a qualidade da água. O governo avalia também a remoção mecânica das plantas. Operadores turísticos, porém, alertam para a necessidade de medidas mais imediatas.

Foto: Instagram @naviohomero / Reprodução

Para Carlos Nascimento, a medida é importante, apesar de ser “uma providência de emergência”. “O ideal é que a gente consiga conter os aguapés muito antes de chegarem à eclusa, e eles precisam ser retirados da água”, avalia.

O ideal seriam máquinas anfíbias que fizessem a retirada dos aguapés, os colocassem em uma balsa, que iria para a margem, como aponta o estudo da UNESP– explica

O jornalista ressalta ainda a necessidade de se melhorar a qualidade da água, “porque o aguapé que aparece na hidrovia Tietê-Paraná vem principalmente da Grande São Paulo. Ele se forma no trajeto inicial de 300 km até a Usina da Barra, que é a 1ª grande hidrelétrica no médio Tietê”.

 

Além do plano de controle, o governo de São Paulo instituiu, nesta terça-feira, 1º de abril, o Grupo de Fiscalização Integrada das Águas do Rio Tietê (GFI-Tietê), para monitorar e combater a poluição do rio. O grupo reúne órgãos ambientais estaduais, prefeituras e comitês de bacias hidrográficas, promovendo fiscalização integrada e compartilhamento de informações.

 

Coordenado pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (SEMIL), o GFI-Tietê atuará em unidades de gerenciamento de recursos hídricos do Alto ao Baixo Tietê. Suas ações incluem monitoramento via satélite, aplicação de sanções ambientais e parcerias com instituições acadêmicas e sociedade civil.

 

Para dar força a esse movimento, há ainda a campanha “Por um Tietê Limpo e sem Aguapés”, que tem Nascimento como um de seus principais percursores, e pretende mobilizar a sociedade e chamar atenção para as consequências dos aguapés. Veja:

 

 

Ver esta publicação no Instagram

 

Uma publicação partilhada por Navio Homero Krähenbühl (@naviohomero)

O jornalista conta que a campanha teve adesão das companhias de navegação e das emissoras de televisão regionais. “Cada um foi dando um ‘pitaco’ e construímos o que hoje é a campanha Por um Tietê Limpo e sem Aguapés”. Segundo ele, a iniciativa ganhou ainda mais força com a presença das cianobactérias nas águas.

Esses dois motivos chamaram a atenção dos frequentadores do rio. A campanha pretende mobilizar a sociedade, porque quem usa o rio já sabe de todos esses problemas– conta

 

O post Aguapés formam “campos de futebol” no Rio Tietê e afetam desde turismo náutico até a pesca apareceu primeiro em Náutica.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.