
A esteticista Thais Soares Barros Beltram denunciou uma médica anestesista do Hospital Geral de Palmas (HGP) ao Ministério Público Estadual (MPE) após ter sido impedida de receber anestesia durante um procedimento de troca de curativo. A paciente, que luta contra um ferimento crônico no pé decorrente de uma suspeita de úlcera de Marjolin, relatou ter passado por momentos de dor intensa e constrangimento durante o atendimento.
A úlcera de Marjolin é uma degeneração dos tecidos cutâneos que se desenvolve em áreas com inflamação crônica, frequentemente associada a cicatrizes antigas de queimaduras. Thais foi vítima de um sequestro em 2011, em Palmas, quando teve 40% do corpo queimado. Desde então, passou por várias cirurgias e enxertos, mas o ferimento no pé esquerdo permanece aberto desde junho de 2023.
Relato de dor ignorada e humilhação
Segundo Thais, o episódio ocorreu no dia 25 de março, quando retornou ao bloco cirúrgico para a troca de curativo no HGP. A esteticista conta que, devido à gravidade de seu ferimento, que expõe nervos e tendões, sempre recebe sedação e anestesia para suportar o procedimento.
Contudo, a anestesista de plantão teria se recusado a aplicar o anestésico, alegando que o curativo era pequeno e que a dor relatada pela paciente poderia ser de origem psicológica.
“Ela falou que não precisava de sedação porque meu curativo era muito pequeno. Expliquei que sinto muita dor, tomo metadona e morfina, aí ela começou a insinuar que minha dor era psicológica. O tempo todo ela me coagia a fazer o procedimento sem anestesia. Foi aí que começou a tortura, porque eu estava lúcida o tempo todo”, relatou Thais.
Após o procedimento, a esteticista foi levada chorando para a enfermaria e só recebeu medicação para dor posteriormente.
“Foi uma situação muito difícil. Me senti constrangida, humilhada, desrespeitada, ela minimizou a minha dor o tempo todo. Fui negligenciada do começo ao fim do procedimento.”
Histórico de sofrimento e busca por tratamento
Desde o ataque sofrido em 2011, Thais luta contra complicações causadas pela rejeição dos enxertos realizados para tratar as queimaduras. Os ferimentos se agravam periodicamente, causando sangramentos, infecções e dor intensa.
“Depois que cheguei em Palmas, em dezembro, meu pé começou a piorar muito, não sei se pela viagem longa. Em janeiro comecei a ter muitas hemorragias, muita dor. A ferida que era menor começou a expandir e procurei ajuda médica.”
A paciente foi internada no HGP em 2 de março e, desde então, passa por procedimentos frequentes de troca de curativos. Após o incidente envolvendo a anestesista, Thais recebeu alta no último domingo (31 de março), mas deve retornar ao bloco cirúrgico a cada dois dias para continuar o tratamento. A necessidade de uma nova internação dependerá dos resultados da biópsia que está sendo realizada.
Resposta do hospital e investigação do Ministério Público
A Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins afirmou que não compactua com atitudes que desrespeitem o atendimento humanizado em suas unidades. Informou também que o caso foi encaminhado para análise pela área técnica responsável, que tomará as providências cabíveis.
O Ministério Público Estadual declarou que está verificando a denúncia apresentada por Thais e que irá apurar as circunstâncias do atendimento.
A paciente, que já enfrentou uma série de procedimentos dolorosos desde o crime de 2011, desabafou sobre a falta de acolhimento e respeito durante o atendimento mais recente:
“Até agora ninguém responsável pelo hospital veio falar comigo, nem ao menos me ouvir, me pedir desculpas. Eu merecia pelo menos isso.”