Esporotricose: doença em gatos é motivo de preocupação em Santa Cruz

Há cerca de um mês, um gato foi resgatado pela Secretaria Municipal de Bem-Estar Animal na Rua Fernando Abott. Chamado de Abacaxi, de aproximadamente 5 anos, apresentava diversos ferimentos na pele. No entanto, o que pareciam ser lesões de violência eram resultado de uma doença. Ele foi diagnosticado com esporotricose, uma infecção fúngica que contamina animais e humanos. 

As feridas na pele de Abacaxi podem sugerir que se trata de algo grave. No entanto, se identificada e tratada, a esporotricose tem cura. Prova disso é que, desde que foi retirado das ruas, foi medicado e reage bem ao tratamento. 

De julho de 2023 até o início de fevereiro de 2025, Santa Cruz do Sul registrou cerca de 120 casos em animais (cães e gatos). A maioria são felinos (98,3%) e quase todos vivem ou têm acesso à rua, conforme o Departamento de Vigilância e Ações em Saúde. 

LEIA TAMBÉM: Entenda como funcionará o Pix por aproximação

Embora a doença seja transmitida para humanos, as notificações de pessoas contaminadas no município chegam a 50. Ou seja, metade dos registros em animais. Em 2023 foram 26 ocorrências e no ano seguinte subiram para 29 (destes, nove foram descartados ou tratados na rede privada). Neste ano, o Município já contabilizou cinco notificações. 

O Bairro Bom Jesus hoje concentra o maior número de casos de esporotricose animal. São 14 (11,7%). A situação preocupa o presidente da associação de moradores, Clairton Ferreira, que se mobilizou e pede ajuda do poder público para controlar as contaminações. Ele quer que medidas sejam tomadas o mais rápido possível, uma vez que nem todas as pessoas conseguem pagar os custos do tratamento. 

“Ainda não temos uma solução e acreditamos que haja mais infectados. Precisamos alertar a população e tomar providências para que o número de casos não aumente. A luta deve ser de todos nesse momento”, ponderou.

LEIA TAMBÉM: Santa Cruz do Sul está entre os maiores geradores de oportunidades de trabalho no Estado

Moradora do Bom Jesus, a almoxarife Maria Helena da Silva, de 57 anos, relatou que sua rotina mudou desde o aparecimento de gatos infectados por esporotricose. Dona de dois felinos, mantém ambos trancados para que não sejam expostos aos que perambulam pelo bairro e transmitem a doença. 

Maria Helena lamentou pelo estado em que os animais contaminados se encontram. “É horrível vê-los nessa situação”, desabafou. Um deles, segundo ela, foi abandonado. “Antes, esse gato aparecia de vez em quando, mas agora é sempre”, afirmou. 

Para a almoxarife, é necessário conscientizar a população a respeito dos riscos da doença. Além do Bom Jesus, os bairros Arroio Grande (13), Centro (11) e Goiás (10) concentram 39,2% dos casos.

LEIA TAMBÉM: Cavalgada das Anitas será no dia 8 de março; saiba como participar

Município quer viabilizar tratamento para animais

Em meio a um possível aumento de casos de esporotricose em Santa Cruz, a secretária de Bem-Estar Animal, Bruna Molz, reuniu-se com o titular da Saúde, Rodrigo Rabuske, para definir com suas equipes as estratégias de enfrentamento à doença. Uma delas é viabilizar a liberação do tratamento para animais.

Gato Abacaxi é acompanhado pela secretária Bruna

Em nota, Rabuske explica que o Ministério da Saúde disponibiliza o tratamento para humanos por meio da secretaria municipal. Contudo, não há a mesma garantia para os animais, especialmente os felinos, que são os mais infectados pela doença que está no solo.

Diante disso, a Secretaria de Bem-Estar Animal, em parceria com as vigilâncias epidemiológica e ambiental, trabalha com a Procuradoria-Geral do Município (PGM) para obter a liberação. Conforme Bruna, além da elaboração de medidas preventivas, é necessário obter meios para tratar os animais contaminados. “Precisamos agir com ações concretas para evitar a disseminação.” 

LEIA TAMBÉM: Furto de tampas de metal preocupa pedestres em Santa Cruz

Além disso, a secretária avalia a possibilidade de auxiliar os moradores quanto ao descarte correto dos animais infectados que vão a óbito. Ressalta que eles não devem ser enterrados no solo, para evitar a disseminação da doença. 

Em vídeos nas suas redes sociais, Bruna afirmou que o Ministério da Saúde precisa entender que não adianta só tratar a pessoa e não os animais. O tratamento, que é caro, é o mesmo tanto para humanos quanto para felinos e cães, mas o ministério não permite que ele seja aplicado em animais. “Nós precisamos que essa medicação seja liberada às ONGs, protetores e pessoas de baixa renda que não têm como comprar, nos ajudando nesse enfrentamento.”

LEIA TAMBÉM: Obras de revitalização do Parque de Eventos devem ser concluídas até o início da Fecars

Subnotificação

Em nota, a assessoria de imprensa da Prefeitura de Santa Cruz informou que a Secretaria Municipal de Saúde, por meio do Departamento de Vigilância e Ações em Saúde, acompanha os casos de doenças que envolvem animais (zoonoses) como forma de monitoramento de doenças em seres humanos. Conforme a médica-veterinária do departamento, Daniela Klafke, desse modo, não há gerência sobre atendimentos em animais.

Em julho de 2023, um formulário para notificação de esporotricose em animais foi criado para os médicos-veterinários que prestam atendimento privado. O objetivo, segundo Daniela, é fazer a vigilância epidemiológica como auxiliar no diagnóstico dos casos da doença em humanos. “No entanto, a imensa maioria dos profissionais médicos-veterinários não notifica”, afirma.

De julho de 2023 até dezembro de 2024, foram notificados 109 casos de esporotricose animal (em felinos e caninos). Destes, 52,30% foram animais recolhidos pelo Canil Municipal. “Vale ressaltar que não se trata apenas de felinos, pois temos casos em cães. Falamos em esporotricose animal. Os gatos são a maioria dos casos da doença em animais”, explicou.

LEIA TAMBÉM: Dois Cras realizam feirão de empregos nesta quinta-feira em Santa Cruz

A médica-veterinária ressalta que a notificação é importante para o controle da doença em humanos. “Quando os casos são notificados, ficamos sabendo da doença, quais bairros têm maior incidência, qual a prevalência, qual o perfil dos casos em animais e se há membros da família com sinais”, explica.

Felinos resgatados conseguem se recuperar da doença

Os felinos Dominick e Stuart foram resgatados pela equipe da ONG Salve Um Gatinho e diagnosticados com esporotricose, apresentando lesões no corpo. Com o tratamento adequado, as feridas cicatrizaram. 

Hoje, após meses de medicação, eles não têm mais os ferimentos e são considerados curados. No entanto, continuam a receber diariamente o antifúngico para evitar que a doença volte a se manifestar. “É a prova de que se tratar bem, tem solução. Temos pena porque é bem dolorido, e também causa coceira, sangra. Eles sofrem muito”, diz Candice Meinhardt Duarte Silveira, uma das fundadoras da ONG.

Segundo ela, há muitos pedidos de resgate nesses casos. No entanto, diante da necessidade de isolamento, devido ao risco de contaminação, só conseguem receber dois em tratamento. “Há bem pouco tempo nem tínhamos ouvido falar na doença, mas hoje a esporotricose está espalhada pela cidade. Em vários bairros há registro de casos.”

LEIA TAMBÉM: Serviço Geológico do Brasil deve concluir em novembro levantamento de áreas de risco

Por se tratar de uma doença transmissível, Candice afirma que muitas pessoas têm medo e abandonam o animal. “É importante ressaltar que a doença tem cura e que abandonar o gatinho doente, além de crueldade, é crime. Muitos gatos são deixados por estarem com a doença, sendo que poderiam ser tratados e curados”, observa.

Candice – ONG Salve um Gatinho

Segundo a médica-veterinária do Hospital Veterinário da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Ana Paula Backes Lisboa, há muitos casos atendidos e que são notificados para a Vigilância Sanitária. “Pelo menos um por semana nós atendemos”, afirma. 

Ela diz que é comum tutores de gatos diagnosticados solicitarem a eutanásia dos animais infectados. Entretanto, reitera que existe tratamento e não há motivo para sacrificar o felino. “Apenas em situações muito pontuais, onde o animal tem perda na qualidade de vida, por não conseguir se alimentar ou respirar”, explica.

LEIA TAMBÉM: Produtores superam desafios e conseguem resultados positivos

Ana reforça que é necessário dar continuidade ao medicamento mesmo após a regressão das feridas. “Muitas pessoas não entendem isso e acabam parando por achar que melhorou.”

Acesso à rua deve ser evitado

Conforme o Ministério da Saúde, a doença tornou-se conhecida por manifestar-se predominantemente entre pessoas que manipulam a terra, como trabalhadores rurais, que tinham contato com espinhas, lascas de madeira ou matéria orgânica em decomposição. Por isso, era conhecida como a doença do jardineiro ou da roseira.

No entanto, atualmente, sua ocorrência está relacionada à transmissão por meio de arranhadura ou mordedura de felinos contaminados.

LEIA TAMBÉM: Hospital Santa Cruz recebe avaliação positiva da Anvisa

A veterinária Ana Paula Backes Lisboa explica que os animais com acesso à rua são mais propensos a contaminação. Por isso, não permitir que eles saiam de casa é a melhor prevenção.

Os sintomas variam conforme a maneira com que ela se manifesta, afetando órgãos internos (especialmente os pulmões, o que é mais raro, provocando tosse, falta de ar e dor ao respirar) ou a pele.

As lesões costumam surgir na face e nas orelhas com maior frequência. “Se o animal possui o fungo nas unhas e se coça, vai espalhar para o resto do corpo”, explica Ana.

LEIA AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO PORTAL GAZ

quer receber notícias de Santa Cruz do Sul e região no seu celular? Entre no nosso grupo de WhatsApp CLICANDO AQUI 📲 OU, no Telegram, em: t.me/portal_gaz. Ainda não é assinante Gazeta? Clique aqui e faça agora!

The post Esporotricose: doença em gatos é motivo de preocupação em Santa Cruz appeared first on GAZ – Notícias de Santa Cruz do Sul e Região.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.